Mentiras Sinceras me interessam

Esta mensagem inicial do blog explica, se é que é preciso, o título do mesmo. Todos sabem que é parte da letra de uma música de Cazuza (abaixo) (...) "mentiras sinceras me interessam". Tem outra frase que poderia ser usada. É de uma amiga minha (não me perguntem de quem); "Mente, mas mente gostoso
". Claro que o blog não será usado para difundir mentiras, mas os leitores talvez se identifiquem com a dose de ilusão necessária e até fundamental que coloco em tudo o que faço e escrevo. Utopia, ainda é, uma droga lícita. Mas use com moderação.

"Entre a sinceridade ferina e a falsidade carinhosa, prefiro a última. No jogo impreciso do amor, vale mais a intenção forjada do que a fúria da razão. Portanto, entre a espada crua da verdade, mentiras sinceras me interessam"

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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Primeiro dia de aula


Primeiro dia da aula




Poucas coisas deixam-me tão feliz quanto ver crianças chegando para o primeiro dia de aula. Principalmente as do “Jardim”, as bem pequenas. É de se ver os passinhos nervosos nas proximidades da escola, os cabelos arrumados, o "material escolar" novinho...O lanche. As carinhas umas diferentes das outras (como tem “modelos” novos de crianças!) Tão diferentes, tão iguais. Entre eles não há preconceitos, discriminações. Quantas fantasias, expectativas, excitação. São sentimentos contraditórios, é um frio na barriga, é o medo, a ansiedade, a insegurança. É a saída do aconchego da família.  Uns apavorados com tanta agitação, outros curiosos...Tudo é novidade, é a conquista de um mundo novo. São crianças diferentes à sua volta, são adultos diferentes...Os professores! Meu Deus! Quem são? Como serão? Os pais, às vezes os assustam. Alguns se sentem em casa: já frequentavam a escola com os irmãos mais velhos, com os pais. Finalmente chegara a vez deles. Se sentem importantes, acolhidos, valorizados. Se descobrem seres sociais.  Toda a estrutura está ali por eles e para eles. São protagonistas, atores principais de uma aventura. A aventura real da sua própria vida em sociedade! Às vezes não nos damos conta da importância deste dia, mas ele cai como uma bomba de novidades no colo destes seres de olhos brilhantes e corações puros. O quê mais dizer? Refletir sobre a responsabilidade dos profissionais de educação com este momento? Apresentar as teorias e técnicas de adaptação da criança à escola? (Pedagogia numa hora dessas?) Não! Prefiro ficar com a imagem do momento mágico. É o inicio da caminhada deles. É o começo do sonho, é a renovação da esperança. E é só primeiro dia. O primeiro de aula.

By  Vidal


"Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único"    (John Lennon)


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Inteiros? Como?


Tradução do Alemão: basicamente todas as crianças são difíceis, porque elas raramente fazem exatamente o que esperamos delas.            
            

Estudando Psicopedagogia deparei-me com um desabafo parental (uma mãe) de um aluno especial (com dificuldades de aprendizado, sem deficiência física ou mental diagnosticada).
             Essa mãe, em processo de dor e sofrimento, disse não se sentir plena, inteira. Eis a fala da mãe:

“...eu quero tornar-me uma pessoa inteira... Cansei de ser tudo: mãe, mulher, amante, amiga... Ser tudo e não ser nada, ser metade, não ser inteira. Eu vivo para o meu filho e se eu pudesse colocaria ele em uma escola, uma clínica... Que eu o internasse e só o pegasse só nos fins de semana, ou que eu fosse apenas visitá-lo de vez em quando. Separar dele me facilitaria ser inteira, e não apenas metade. Ele toma meu tempo, me suga. Quero viver para mim.”
              Imediatamente parei de ler (chocado, escandalizado). Depois “desci do meu pedestal de juiz” e comecei a refletir.  
             Tentei colocar-me no lugar desta mãe. Sou “apenas” pai e, nem imagino quantas vezes tenho que multiplicar meu sentimento de pai para equipará-lo ao sentimento que suponho ser o de mãe.
              Esta leitura, a da denúncia do sofrimento, pontuou algo: esses rancores aparecem e devem ser revelados, explicitados, compartilhados. Antes de ser mãe-heroína é pessoa, mulher, ser. 
              Por outro lado, usando minha memória emocional, perguntei-me: como eu poderia ser “inteiro” longe de um filho que precisa de minha ajuda? Afinal a razão da existência humana, até biologicamente falando, não é gerar e cuidar da “prole?” Todo o resto....tudo mesmo (até ser feliz) não fica em “segundo plano?”
              Tive uma experiência recente neste sentido. Na semana atrasada ficamos 4 dias na praia; eu e minha mulher. A filha não quis viajar conosco. Ficou na casa de minha irmã, onde há uma prima da mesma idade. A nossa estada no litoral foi maravilhosa. Mas estava faltando algo. Tudo o que víamos e usufruíamos lembrava a filha: ela ia gostar disto, ela gostaria de comer aquilo...Confesso que experimentei até um sentimento de culpa, de egoísmo pelo fato de estar me divertindo tanto sem a filha. 
       Nesta semana que passou fomos novamente à praia e a levamos (junto com a prima). Aí sim. Apesar dela passar a maior parte do tempo longe da gente, com a prima (normal), sabíamos que ela estava ali, aproveitando tudo o que nós podíamos proporcionar. Estávamos muito mais felizes. “Inteiros”. Perturbador.
               Isto aumenta a responsabilidade do Psicopedagogo. Cuidar, além do educando, da família, da escola, dos outros educadores. Este sentimentos; a mágoa, rancor, frustração, refletem-se diretamente no “objeto” que os origina: o filho, o aluno, dificultando mais ainda o trabalho de auxílio ao seu desenvolvimento.

By Vidal

(Texto desenvolvido a partir de leituras de módulos do Curso de Pós Graduação em Psicopedagogia - ESAB)